Na autoestrada que liga Jidá à costa do Mar Vermelho, o deserto, de repente, deixa de ser vazio e transforma-se numa sucessão de gruas e betão. O pó paira no ar enquanto filas de autocarros despejam trabalhadores de macacão azul, pequenos perante uma floresta de aço que marca a implantação da Torre de Jidá - o arranha-céu pensado para rasgar o céu a um quilómetro de altura. Os condutores abrandam para o filmar com os telemóveis. As rádios dos táxis falam dele mais do que do tempo. Os velhos pescadores da vizinha Obhur apontam para a silhueta distante e brincam: “Ainda vamos precisar de binóculos só para ver o topo.”
O sonho é claro: a Arábia Saudita quer que o mundo levante os olhos.
A pergunta é quem está a olhar para a fatura.
O sonho mais alto que o dinheiro pode comprar
A Torre de Jidá foi concebida para ser a afirmação máxima de uma época. Um quilómetro de vidro, aço e orgulho reforçado, erguido numa cidade onde as rendas dos apartamentos sobem discretamente e os camiões-cisterna continuam a ressoar pelas ruas laterais poeirentas. As autoridades sauditas apresentam-na como símbolo da Visão 2030: uma economia nova, menos dependente do petróleo, mais virada para o turismo, a tecnologia e o prestígio internacional. Dubai tem o Burj Khalifa, Riade está a reinventar-se e Jidá, porta de entrada para Meca, quer um marco que literalmente atravesse o céu.
À distância, parece uma agulha a coser o deserto às nuvens.
Nas redes sociais, as imagens promocionais mostram jardins suspensos, miradouros e apartamentos de luxo acima das nuvens. No chão, Mohamed, um motorista da Uber de 28 anos em Jidá, conta uma história diferente. “Dizem que é para todos nós”, encolhe os ombros, a olhar pelo espelho retrovisor, “mas eu e os meus amigos só vamos vê-la no Instagram.” No bairro dele, a preocupação maior são os salários, não as silhuetas do horizonte.
As contas oficiais raramente explicam quanto dinheiro público acaba, na prática, a alimentar estes megaprojetos. O investimento circula por fundos soberanos, redes ligadas à família real e empresas privadas, onde as fronteiras se desfazem depressa. Uma coisa é certa: o dinheiro do petróleo continua a sustentar a fantasia.
Em Jidá, o desafio não é apenas erguer a torre; é mantê-la de pé num clima costeiro duro, com humidade salgada, calor intenso e vento que castiga estruturas expostas durante décadas. Cada superfície de vidro, cada sistema de refrigeração e cada elemento de manutenção futura terá de enfrentar custos muito acima do normal. Num edifício desta escala, o brilho do lançamento tende a ocultar a despesa silenciosa da conservação.
Há também o efeito sobre a cidade em redor: circulação, acessos, consumo de energia, sombra, estacionamento e ligações aos restantes bairros. Um arranha-céu desta dimensão não altera apenas a linha do horizonte; redefine a forma como a cidade se movimenta, se mostra e distribui espaço entre quem visita e quem vive ali todos os dias.
Quando os projectos de prestígio encontram a vida quotidiana
A Torre de Jidá vive no cruzamento de duas forças: modernização genuína e vaidade crua. De um lado, um país a correr para diversificar a economia, atrair investimento estrangeiro e oferecer aos jovens sauditas algo para lá dos empregos públicos e dos centros comerciais. Do outro, uma liderança envolvida numa guerra silenciosa de alturas com os vizinhos do Golfo. Quanto mais alta a torre, mais alto o recado: estamos a vencer.
Para os cidadãos que vêem os preços da comida a esticar o salário até ao limite, o simbolismo pode soar agressivo. Um arranha-céu de um quilómetro proclama êxito, mas as dúvidas circulam em conversas de WhatsApp e em cafés de fim de noite. De quem é, afinal, este sonho, e quem acaba por pagar os juros?
Se falares com jovens sauditas nos cafés de Jidá, vais ouvir uma mistura de orgulho e cansaço. Orgulho, porque ninguém pode negar a emoção de dizer: “A torre mais alta do mundo fica na minha cidade.” Cansaço, porque a vida está mais cara enquanto os ordenados não disparam ao mesmo ritmo. Ao fundo, mantém-se uma velha verdade do Golfo: os megaprojetos tendem a beneficiar um círculo reduzido no topo muito antes de chegarem ao nível da rua.
Há uma coreografia discreta na forma como estes projetos avançam. Primeiro surgem os anúncios brilhantes, as imagens aéreas feitas por drones e a música grandiosa. Depois vêm os contratos: gigantes internacionais da engenharia, arquitetos de topo, cadeias hoteleiras de marca. Mais tarde, aparecem os estaleiros que funcionam dia e noite, quase sempre cheios de trabalhadores migrantes que dormem em campos apertados, longe do brilho urbano. Uma professora saudita ali perto resumiu-o sem rodeios: “A torre é para turistas e investidores. Os meus alunos continuam a partilhar manuais antigos.”
O contraste é tão visível que nem são precisas estatísticas para o sentir.
Os defensores dizem que a torre vai criar empregos, atrair capital e elevar a projeção da cidade. E não estão errados. Alguns jovens sauditas vão mesmo conseguir funções em gestão, engenharia, hotelaria e marketing digital ligados ao projeto. Ainda assim, a questão mais profunda permanece: empregos para quem, com que salário e durante quanto tempo? O impulso de curto prazo da construção pode esconder a fatura de longo prazo de manter um monumento de um quilómetro num litoral severo. Convenhamos: ninguém lê, todos os anos, a rubrica da manutenção no orçamento nacional.
A vaidade não aparece como categoria separada de despesa. Esconde-se dentro da palavra “visão”.
A política nua de uma afirmação de um quilómetro
Se retirarmos a embalagem de marketing, a Torre de Jidá é também um sinal geopolítico. A Arábia Saudita quer posicionar-se como centro do mundo árabe, do mundo islâmico e como polo turístico global. Uma seta de mil metros apontada para cima envia uma mensagem que vai muito além do Mar Vermelho. Diz: temos dinheiro, tecnologia, estabilidade e ambição suficientes para concretizar o que mais ninguém conseguiu.
Isso conta muito numa região onde os horizontes urbanos se estão a tornar o novo campo de batalha do prestígio.
Dentro das casas sauditas, porém, as conversas são bem mais terrenas. As famílias fazem contas à subida do IVA, falam dos custos dos combustíveis e da alimentação, discutem as novas opções de entretenimento e interrogam-se sobre o futuro dos filhos. Alguns apreciam a nova energia, os concertos, os cinemas e o afrouxamento de antigas regras sociais. Outros preocupam-se com o ritmo, com a dívida e com a sensação de que o país passou, quase de um dia para o outro, de cauteloso a hipersambicioso. Para muitos, a torre simboliza exatamente essa aceleração súbita: de tirar o fôlego, vertiginosa e difícil de travar.
Por detrás do vidro e do aço, existe um desconforto muito humano em torno do equilíbrio.
“Os edifícios não se pagam sozinhos”, suspira um analista financeiro em Riade, que falou sob anonimato. “Fundos públicos, dinheiro emprestado, acordos de terrenos - tudo está ligado. Quando se aposta no prestígio, aposta-se com o futuro de alguém, mesmo que essa pessoa nunca entre no átrio.”
- As receitas do petróleo continuam a sustentar megaprojetos como a Torre de Jidá, mesmo numa narrativa dita “pós-petróleo”.
- O dinheiro público e a riqueza soberana misturam-se de formas que os cidadãos comuns dificilmente conseguem seguir.
- O aumento do custo de vida faz com que qualquer riyal desviado para o espetáculo seja sentido com maior intensidade.
- Os projetos de prestígio criam empregos, mas muitos acabam nas mãos de empresas estrangeiras especializadas e de trabalhadores migrantes.
- Os cidadãos ficam a perguntar-se quem beneficiará daqui a 20 anos - e quem suportará eventuais dívidas escondidas.
Uma torre, mil leituras: Torre de Jidá e o significado do prestígio
Mais do que um monumento, a Torre de Jidá funciona como um espelho de um país em velocidade de cruzeiro. Reflete a ambição de um jovem príncipe herdeiro, as expectativas de milhões de sauditas que querem mudança e a ansiedade de quem teme tornar-se mero espectador de um futuro construído em seu nome, mas não para o seu bolso. Basta ficar junto à vedação do estaleiro para ver, no mesmo olhar, orgulho e desconfiança.
Todos conhecemos esse momento em que se pergunta se o sonho que nos vendem é realmente nosso.
Este pico de um quilómetro a subir para o céu obriga a uma pergunta crua: como é que se mede o progresso quando o horizonte urbano cresce mais depressa do que o contrato social? Para uns, a resposta é simples: são precisos ícones para puxar a narrativa de um país para a frente. Para outros, a verdadeira modernidade seria mais silenciosa - melhores escolas, hospitais mais fortes, empregos mais seguros e a possibilidade de comprar uma casa modesta antes de posar diante de uma torre recordista. Entre estas visões, a Arábia Saudita tenta enfiar uma agulha muito estreita.
A altura da Torre de Jidá será fácil de medir. O custo para as pessoas que vivem à sua sombra demorará muito mais tempo a perceber.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A torre saudita de 1 km é um símbolo global de vaidade | A Torre de Jidá foi desenhada para ser o edifício mais alto do mundo, sinalizando poder e ambição | Ajuda a decifrar a mensagem política por detrás do horizonte mais espectacular do planeta |
| Os cidadãos sentem o custo no dia a dia | Despesas de vida em alta, despesa pública pouco transparente e acesso limitado aos benefícios do projeto | Dá contexto sobre quem paga realmente quando os megaprojetos dominam as prioridades nacionais |
| Prestígio e progresso nem sempre são a mesma coisa | Ganhos em emprego e imagem vêm acompanhados de riscos financeiros e sociais a longo prazo | Leva o leitor a questionar se “recorde” é sempre sinónimo de “melhor” para a população |
Perguntas frequentes
Pergunta 1: Porque quer a Arábia Saudita uma torre de 1 quilómetro em Jidá?
Resposta 1: Trata-se de um símbolo poderoso da Visão 2030: diversificar a economia, atrair turismo e investimento e competir com rivais regionais como Dubai pela atenção mundial.Pergunta 2: Quem está a pagar a Torre de Jidá?
Resposta 2: O financiamento passa por promotores privados e entidades ligadas ao Estado, sustentadas pela riqueza do petróleo e por fundos soberanos. Isso significa que o dinheiro público fica indiretamente exposto, mesmo quando não está claramente identificado como tal.Pergunta 3: Os sauditas comuns vão beneficiar deste projeto?
Resposta 3: Alguns vão encontrar emprego e oportunidades de negócio, sobretudo nos serviços e no turismo, mas muitos sentem que os benefícios diretos ficarão concentrados entre investidores, elites e visitantes de alto nível.Pergunta 4: A Torre de Jidá é apenas uma questão de vaidade?
Resposta 4: Não totalmente. Mistura objetivos económicos reais com política de prestígio: é, ao mesmo tempo, ferramenta de imagem, íman de investimento e impulso ao ego nacional.Pergunta 5: O que revela este projeto sobre o futuro da Arábia Saudita?
Resposta 5: Mostra um país a acelerar para uma transformação ousada e arriscada, dividido entre símbolos espectaculares de progresso e as exigências mais silenciosas de cidadãos que perguntam quem suportará o custo a longo prazo.
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